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LAIPP

Laboratório de Avaliação & Inovação em Políticas Públicas

08 dez 2020

Raça e gênero influenciam nas expectativas dos professores?


Pesquisador responsável: Adriano Valladão Pires Ribeiro

Título do artigo: EXPECTATIVAS DOS PROFESSORES E MISMATCH RACIAL NA ESCOLA PÚBLICA BRASILEIRA

Autor do artigo: André Vieira

Localização da intervenção: Brasil

Tamanho da amostra: 53.841 turmas

Grande tema: Educação
Tipo de intervenção: Diferenças demográficas

Variável de interesse principal: Expectativa dos professores

Método de avaliação: Avaliação Experimental (RCT)

Problema de Política

As expectativas dos professores sobre o êxito educacional dos alunos podem estar relacionadas a diversos fatores, como rendimento escolar, motivação e contexto socioeconômico dos estudantes, as disparidades raciais entre docentes e alunos, entre outros motivos. Os dados da Prova Brasil permitem estudar a relação entre as expectativas dos professores de matemática e língua portuguesa do nono ano do ensino fundamental da rede pública de ensino e as características raciais e de gênero entre docentes e alunos.

Contexto da Avaliação

Quando professores têm expectativas sistematicamente maiores ou menores sobre um grupo de estudantes, então suas expectativas estariam enviesadas. Uma vez que as expectativas dos professores podem ter impacto de longo prazo nos resultados acadêmicos e no mercado de trabalho dos alunos, um viés em sua formação pode ser um problema. Em especial, quando um viés associado a expectativas mais baixas sobre um grupo minoritário leva alunos desse grupo a reforçarem atitudes e comportamentos negativos, perpetuando desigualdades sociais.

Detalhes da Intervenção

As expectativas dos professores do nono ano do ensino fundamental foram coletadas por meio da Prova Brasil de 2013, uma avaliação censitária das escolas públicas nas áreas de matemática e língua portuguesa. Como parte da avaliação, os professores dessas duas matérias responderam um questionário sobre a turma informando, em 3 questões diferentes, quantos alunos ele esperava que concluam o ensino fundamental, quantos concluam o ensino médio, e quantos entrem na faculdade. As respostas poderiam ser poucos, um pouco menos da metade, um pouco mais da metade ou quase todos os alunos. Essas perguntas e suas respostas formam o objeto investigado.

Outras informações dos estudantes utilizadas para se investigar a expectativa dos professores foram a proficiência em língua portuguesa e matemática, a trajetória escolar, aspirações educacionais, características sociodemográficas e nível socioeconômico das famílias. Quanto aos professores, usou-se dados sobre sua formação, a experiência lecionando e a proporção do conteúdo previsto efetivamente ensinado. Por fim, professores e alunos responderam também um questionário indicando o que melhor os descreve em que as opções eram branco, pardo, preto, amarelo e indígena. As opções pardo e preto foram classificadas como negros.

Dado que as expectativas dos professores foram medidas pelas três questões sobre o grau máximo educacional esperado da classe, todas as demais variáveis tiveram que ser agregadas ao nível da turma. Ao investigar se a composição racial entre docentes e estudantes nas turmas explica diferenças nas expectativas dos professores, deve-se levar em conta também outros fatores. Entre eles estão o comportamento e desempenho escolar dos alunos, o ambiente familiar e suas características socioeconômicas, principalmente em ambientes de grande desigualdade. Sem levar em conta esses fatores, poder-se-ia atribuir a diferença racial mais importância do que ela de fato tem.

Metodologia

Uma maneira de se analisar educação é reconhecer a existência níveis hierárquicos na estrutura de seus elementos, isto é, no primeiro nível teríamos os alunos, estes estão divididos em classes, o segundo nível, que por sua vez fazem parte de escolas, terceiro nível, e que, por fim, integram uma rede de ensino. Portanto, foi-se posto em uso uma análise multinível, ainda que, devido a forma como as expectativas dos professores foram coletadas, apenas as salas de aula e as escolas estaduais e municipais foram os níveis considerados. A investigação contou com observações de 53.841 classes e 18.923 escolas e cada uma das três previsões dos professores foram estudadas separadamente. Por fim, ressalta-se que a mensuração desses dois níveis permite distinguir a importância da instituição nas expectativas dos professores, isto é, qual o efeito-escola atribuído a previsão dos docentes.

Resultados

Primeiro, nota-se que as expectativas dos docentes decrescem quanto ao grau de escolaridade, ou seja, espera-se que mais alunos concluam o ensino fundamental do que o ensino médio e que ainda menos estudantes entrem na faculdade. As previsões também são maiores para as turmas de maioria não negra quando comparadas as turmas de maioria negra e miscigenadas. Além disso, pela maior parte dos professores serem não negros ou miscigenados, os estudantes negros apresentam a maior proporção de diferença racial na sala de aula.

A análise multinível indica que turmas lecionadas por professoras, com maiores desempenhos nas avaliações de matemática e língua portuguesa e que ensinam o conteúdo previsto efetivamente estão associadas a expectativas maiores. A associação desses fatores é ainda mais forte quando a expectativa é sobre entrada na universidade. Além disso, a diferença entre escolas explica, respectivamente, 31%, 35% e 40% da expectativa dos docentes sobre a conclusão do ensino fundamental, o término do ensino médio e a entrada na universidade. Constata-se, portanto, a presença do efeito-escola, apesar dos motivos da diferença institucional não ter sido alvo do estudo.

Por fim, apresentam-se os resultados referentes aos perfis raciais e de gênero das turmas. Professores negros, em comparação a professores não negros, têm expectativas mais baixas de que os alunos concluam o ensino fundamental, porém as expectativas são mais altas para a conclusão do ensino médio e entrada na universidade. Ao interagir o perfil racial dos professores com o dos alunos, encontrou-se que docentes negros têm previsões mais elevadas para as turmas de maioria negra quando confrontado a professores não negros, revertendo até mesmo o resultado da média para o ensino fundamental. Quanto ao gênero, as expectativas das professoras mulheres são maiores, independente do perfil racial da turma. Ao relacionar gênero e raça, as maiores expectativas são das professoras mulheres e negras para as turmas de maioria feminina e negra.

Lições de Política Pública

As expectativas sobre os alunos dos professores de língua portuguesa e de matemática da rede pública de ensino estão associadas, ainda que de maneira não causal, às disparidades raciais e de gênero entre docentes e estudantes. Como notado acima, a similaridade do perfil racial de professores e alunos pode até reverter as expectativas mais baixas dos docentes. Os resultados apresentados apontam, portanto, para a existência de um viés nas expectativas devido ao perfil racial de estudantes e professores, políticas públicas devem, então, se aprofundar na questão de como as expectativas são formadas para que tal viés possa ser eliminado. Principalmente, quando existe relação entre expectativas dos docentes e resultados de longo prazo dos alunos.

Referência

Vieira, André. “Expectativas dos Professores e Mismatch Racial na Escola Pública Brasileira.” Cadernos de Pesquisa, v. 48, n. 168, p. 412-445, 2018.

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