IDP

LAIPP

Laboratório de Avaliação & Inovação em Políticas Públicas

14 set 2020

Qual o papel da escolaridade da mãe na saúde da família?


Pesquisador responsável: Adriano Valladão Pires Ribeiro

Título do artigo:  HOW DOES MOTHER’S SCHOOLING AFFECT FAMILY HEALTH, NUTRITION, MEDICAL CARE USAGE, AND HOUSEHOLD SANITATION?

Autores do artigo: Jere R. Behrman e Barbara L. Wolfe

Localização da intervenção: Nicarágua

Tamanho da amostra:  1699 famílias

Grande tema:  Saúde

Tipo de Intervenção: Papel da escolaridade da mãe na saúde da família

Variável de interesse principal: Escolaridade da mãe

Método de avaliação:  Função LISREL

Problema de Política

A escolaridade da mãe em uma família teria papel de destaque em aumentar a demanda por itens de saúde de toda a família, como a alimentação, o uso de assistência médica e condições de saneamento. Um problema, contudo, é que diversos fatores sobre a condição de saúde não são observáveis, dificultando traçar uma relação direta entre esses fatores e o grau de educação. Assim, a exploração dos efeitos da escolaridade da mãe sobre a saúde da família demanda um tratamento adequado desse problema.

Contexto da Avaliação

Partindo da ideia de que o grau de educação da mãe estaria ligado a fatores importantes como saúde e nutrição levaram, por exemplo, o Banco Mundial a sugerir o aumento da escolaridade da mulher como um meio de elevar as condições de saúde da população em países em desenvolvimento. Na sequência, apresenta-se um estudo feito na Nicarágua sobre o impacto da escolaridade da mãe e outros fatores não observados nas condições de saúde. Os dados são provenientes de uma pesquisa socioeconômica nacional de mulheres entre 15 e 45 anos conduzida em 1977 e 1978. Usou-se a informação das mães de 1699 famílias em que há indicadores de saúde para crianças abaixo de 5 anos.

Detalhes da Intervenção

Pensando-se em um modelo, os pais, dada a renda familiar, escolheriam o consumo de itens de saúde para eles e os filhos, assim como o consumo de bens e serviços não relacionados a saúde. A saúde de cada membro de uma família seria determinada pela ingestão de nutrientes, condições de água e saneamento, uso de assistência médica, renda, escolaridade e idade da mãe, além de outras características da mãe e do distrito onde moram. As características de onde moram englobam, entre outros, a disponibilidade e informação sobre serviços de saúde, já as da mãe compreendem o conhecimento e hábitos de saúde e o estado de saúde passado.

Com exceção do consumo de bens e serviços não relacionados a saúde, a renda e a idade e escolaridade da mãe, todas as demais variáveis acima não são observadas diretamente. No processo de determinar a relação da escolaridade da mãe no consumo de itens de saúde para a família, a falta ou erro de mensuração de uma variável importante pode acabar colocando mais importância para a escolaridade do que ela teria caso os demais fatores estivessem presentes. Assim, resultados obtidos sem que esse problema tenha sido resolvido ou suavizado podem acabar provendo uma visão distorcida da realidade.

Metodologia

O primeiro passo é contornar o problema das variáveis de saúde não observadas. Usou-se, então, várias informações relacionadas e disponíveis pela pesquisa para se inferir sobre elas, podendo dizer, assim, que são imperfeitamente observadas. A relação entre as informações usadas e as variáveis é descrita abaixo.

Saúde da Criança: Medidas normalizadas de peso, altura e circunferência do bíceps das crianças.

Saúde da Mãe: Quatro índices de condições de saúde baseados em informações das mães, tais como número de dias muito doente para trabalhar ou realizar atividade semelhante nos últimos 6 meses e ter tido, em algum momento da vida, doenças parasitárias, doenças evitáveis (exemplos: difteria e tétano) ou doenças com tratamento terapêutico (exemplo: tifoide e pressão alta).

Nutrição: Duas medidas normalizadas da ingestão de nutrientes (calorias e proteínas) da família na semana anterior a pesquisa e uma informação qualitativa se tinham ou não uma geladeira (importante indicador dado o clima tropical da Nicarágua).

Uso de Assistência Médica: Desvio em relação ao padrão do número de injeções das crianças, em qual trimestre da última gravidez a mãe fez o primeiro exame médico de gravidez e uma variável qualitativa de participação previdenciária, uma vez que tal participação cobre assistência médica subsidiada.

Condições de Água e Saneamento: Três indicadores relacionados a ausência e condições do banheiro na casa.

Características do Local: Índice baseado na população total do distrito, na densidade populacional do distrito, nas camas de hospital por 1000 habitantes e na proporção da população alfabetizada.

Características da Mãe: Índice baseado na escolaridade da mãe, se ela foi trazida a uma área urbana, se teve a mãe presente na adolescência, se teve o pai presente na adolescência e o número de irmãos.

Após construir as mensurações das variáveis latentes usando essas informações, pode-se examinar tanto os efeitos da escolaridade da mãe quanto das características do distrito e demais características da mãe sobre as 5 primeiras (saúde da criança, saúde da mãe, nutrição, uso de assistência médica e condições de água e saneamento). Primeiro, estima-se o efeito usando apenas o grau de educação da mãe sem considerar suas demais características e as características do distrito. Segundo, acrescentam-se as características do local ao sistema. Por fim, estima o efeito adicionando também as demais características da mãe.

Resultados

O primeiro procedimento indica apenas o impacto da escolaridade da mãe nos itens de saúde. O efeito é positivo e significante para a saúde da criança, a nutrição, o uso de assistência médica e nas condições de água e saneamento, isto é, apenas sua própria saúde não é tão impactada pela sua escolaridade. Além disso, há um efeito indireto positivo sobre a saúde da criança via nutrição e saneamento. O segundo procedimento considera também as características do local. Por mais que tais característica tenham um efeito positivo em todas as condições de saúde, o impacto da escolaridade da mãe continua bem semelhante. Em outras palavras, a inclusão dessas características aumenta o poder de explicação sobre os itens de saúde, mas sem afetar o impacto da educação. Por fim, as demais características da mãe ao sistema, quando adicionadas ao sistema, tem impacto positivo em todos os itens de saúde. Ao contrário do segundo procedimento, aqui a escolaridade da mãe perde toda relevância e não seria possível dizer que esse é um fator que tem impacto positivo sobre a saúde e a nutrição.

Lições de Política

Ao lidar com relações que envolvem fatores observados imperfeitamente, deve-se ter muita cautela ao traçar conclusões e recomendações. O estudo apresentado revela que a aparente importância da escolaridade da mãe na saúde e na nutrição da família pode estar superestimado. Ao adicionar outras características da mãe na análise, sua educação perde o efeito positivo sobre a saúde na Nicarágua. Se tal resultado for verdade para outros países em desenvolvimento, recomendações como a do Banco Mundial podem ser enganosas.

Referência

Behrman, Jere R.; Wolfe, Barbara L.. “How does mother's schooling affect family health, nutrition, medical care usage, and household sanitation?”, Journal of Econometrics, Volume 36, Issues 1–2. 1987.

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